segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

                 Trilogia AVENTURAS NA REDENÇÃO



Compõem-se de três livros cujo objetivo é criar, a través da diversão, o hábito da leitura. Para isso a autora criou personagens que transmitissem, de forma natural, as ideias que ela queria passar. Surgem, então, uma avó e seus netos.  As personagens percorrem os três volumes, estando em cada um mais velhos, ou seja, as crianças tornam-se adolescentes e depois jovens adultos. A avó a cada volume está mais velha, consequentemente sem toda a jovialidade que tinha no primeiro, vai ficando mais ranzinza e cansada.

As ações dos três livros passam-se, na maior parte das histórias, em dois espaços: o apartamento da avó e o Parque Farroupilha, também conhecido como Redenção. Entretanto, os acontecimentos podem acontecer em qualquer outro parque de qualquer outra cidade. As questões humanas tratadas nos três livros são universais.


O primeiro volume, "Segredos da Natureza", indicado para crianças que já sabem ler, são narradas aventura com a participação de todos, inclusive da avó. As histórias propositalmente deixam situações em aberto (estratégia didática para professores trabalharem, ativando a criatividade dos alunos). São aventuras em separado, podendo serem lidas isoladamente e trabalhadas a cada uma. Ao final de cada uma há um recontar do acontecido através de versos que, na verdade, formam a letra de uma música. Na visita à Escola, a autora canta, conta e conversa com os alunos num Pocket Show.

As músicas, letra e melodia foram compostas pela autora.


O segundo, "O sumiço de Santos Dumont" indicado para pré-adolescentes é um pequeno romance em que acontece o roubo do busto de Santos Dumont do Parque. Esta notícia leva os netos a investigarem quem levou o busto, o que leva a avó, mais velha um pouco, a ficar nervosa com a situação, apesar de ajudá-los em diferentes momentos. Computadores, notebooks e celulares fazem parte do trabalho dos netos que já estão maiores. O objetivo da autora aqui é mostrar a importância da preservação dos monumentos, levando o leitor a respeitá-los.


                    


O terceiro, "Seriam os animais extraterrestres?" indicado para adolescentes inclui entre as personagens seres extraterrestres e animais. A linguagem e as estruturas frasais na narrativa são mais trabalhadas, os netos já são mocinhos, o mais velho mora no exterior e a trama de desenrola a partir desta inclusão: extraterrestres e animais. Os acontecimentos caminham em direção à importância do amor nas relações, sejam elas entre os seres humanos e até mesmo entre os animais, mostrando de forma implícita que um ser criado com amor e respeito tem menos chances de se envolver em situações perigosas.









PS.: Os nomes das personagens são os nomes dos netos da autora e dela, escritos de trás para o início, Exemplo: Sedruol > Lourdes

E este exercício o professor pode usar para fixação de ortografia

domingo, 8 de setembro de 2024

 

Urubu no Telhado

            Um urubu pousou na antena do prédio ao lado, quando eu tomava meu café da manhã. Normalmente este momento acontece na mesa da sala, de onde tenho uma boa visão, não só do céu mas também do branco sujo das paredes do tal prédio.

            Não é meu hábito olhar para lá, pois além do que já falei, sendo ele da altura do andar em que moro, vejo um conjunto de antenas de todos os tipos e tamanhos no terraço. Sempre me pergunto por que não tiram de lá estes objetos em desuso. Mas hoje, talvez pelo avantajado tamanho da criatura que na mais alta colocou seus pés, meu olhar parece ter sido chamado. E a partir do momento em que o mirei não mais tive sossego. Examinei meu prato de frutas para ver se por ventura não havia me enganado e colocado um pedaço de carne, o que faria com que a grande ave adentrasse meu apartamento e abocanhasse meu bife, sei lá, para meu desespero. Desespero não sei se de medo ou de avareza mesmo. A carne de gado está muito cara. Ri de mim e relaxei.

Fui à cozinha pegar a segunda parte do meu desjejum, os ovos! E agora? Urubus gostam de ovos? Nas histórias em quadrinhos da minha infância, sim! Devoravam os ovos dos ninhos dos pássaros “mocinhos”. Claro, os urubus eram os vilões, coitados. Mas a fome sempre me faz esquecer as desgraças. Trouxe os ovos e o café preto e fiquei comendo, bebendo e cuidando o invasor. Meus pensamentos voando e me lembrei da história de uma aluna cujos pais deixaram para limpar, no dia seguinte, as sujeiras e sobras do churrasco da noite anterior. Levaram aquele susto quando, na manhã seguinte subiram e deram com um urubu comendo um pedaço de picanha. Ainda me pergunto se ele estava usando talheres. Ri de mim novamente e quando olhei para as antenas, a ave havia sumido.

Vou confessar aqui que corri até meu quarto para ver se ele não estava deitado na minha cama. Que vergonha! Ainda bem que moro sozinha. Na minha cama não estava, mas pelos latidos incessantes e desesperados do cão do vizinho de trás, concluí que andava ainda pelos arredores. Pelo menos, mais para baixo. Entretanto, alguns minutos depois fui surpreendida pela gritaria também incessante e desesperada dos papagaios do bairro. O urubu estava causando alvoroço. Fechei todas as janelas.

Como minha cabeça é realmente muito pensante, lembrei o ditado: “O mal do urubu é achar que o boi está morto.” Nada a ver! Mas, de acordo com crendices populares, “urubu no telhado é sinal de morte”. Ainda bem que ele pousou no do prédio ao lado.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Os seres vivos que nos fazem companhia




     Alguns têm gatos, outros preferem cachorros. Graças a Deus, passarinhos em gaiolas são poucos. Há quem até adote uma calopsita. Estou falando de quem mora em cidade grande, em apartamentos, às vezes, até sem uma sacada.

    Eu, há muito tempo, optei pelas plantas. Tenho as que me protegem, como a Comigo Ninguém Pode, que já serviu de árvore de Natal de tão grande. Ficou linda iluminada! Das Espadas de São Jorge, tenho uma de folhas miúdas,  mas poderosas. 

     Porém, as que mais me encantam são as que dão flores. Minha Flor de Maio é tão idosa quanto eu. Dá flor ainda , mas em junho, está lenta. O meu vaso com ciclames já deu flor até em abril; no entanto, este ano, troquei-a de lugar e estou esperando ansiosa pelas lindas flores. Até a mini orquídea me presenteia com um chumaço de flores, lá por outubro. Tenho uma violeta roxa que comprei de pena por estar toda machucada, numa prateleira do supermercado. Está comigo há uns seis anos e me surpreende em setembro com muitas flores.

     Minhas duas últimas  aquisições foram uma folhagem que cai e tem folhinhas pequenas cujo nome mão sei, mas eu já a nomeei de Assanhada de tão linda e exuberante que está; já a outra, é um antúrio de flor vermelha que ainda não me decepcionou. Sempre florescendo.

     Ah, ia me esquecendo da pimenteira, que alegra a minha cozinha, embora não use  seis frutos nos alimentos. Quando aparece uma florzinha branca, sei que ali vem uma pimentinha vermelha.

     Sou muito feliz com minhas companheiras vivas!

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Qual levaria?


     Estava difícil! Não aguentava mais aquele tipo de vida! Esta não tinha sido sua escolha. Os fatos que aconteceram no decorrer dos anos, aos poucos, sem que ela notasse, tinham feito dela uma mulher só. Havia dias que, se não falasse com as plantas ou com a bola de pilates, que insistia em andar de uma peça para outra, não ouviria sua própria voz. Mas como não abrir as janelas e deixar o vento entrar? Precisava dele, trazia a sensação de vida. E a bola, às vezes, tinha de ouvir reclamações por estar fora do lugar.
    Mas naquela tarde, sentia-se abandonada, um rumor interno lhe dizia que estava no fim! Não queria que seu fim fosse assim, só! Sempre teve muita gente ao seu redor. Já nascera numa casa que vivia cheia de gente, e este hábito a perseguiu por muito tempo. De repente lembrou de uma parente que, numa determinada noite, quando estava se sentindo assim, pegara seu travesseiro e fora para casa de um afilhado. Dali nunca mais saiu. Isto só aconteceu quando foi para seu funeral. Ficou pensando se era este mesmo destino que queria para si. E em meio a seus questionamentos veio-lhe uma dúvida, um grande problema
     Qual travesseiro levaria? Aquele em que encostava sua orelha e parte da face, aquele que até devia conhecer seus pensamentos, tão perto deles ficava? No entanto, sabia que não conseguiria dormir sem o travesseiro velhinho e fininho, que ganhava sempre uma fronha macia e lisinha porque era o que ficava entre suas pernas, na altura dos joelhos, impedindo que os ossos em x se tocassem e se machucassem! Lembrou que este danado muitas vezes escapava e ia parar entre seus pés, sabe-se lá por quê. Mas e o macio que ficava à sua esquerda, pra onde se virava quando via que o sono estava tomando conta e o abraçava como quem abraça um grande amor? Difícil entrar em seus sonhos sem ele! De repente, veio-lhe a visão do pequeninho, presente de um dos netos. Não poderia deixá-lo abandonado! Tinha um carinho especial por ele. Eles morreriam de saudade. Ele dela, ela dele. Deu-se conta de que tinha mais um problema. O travesseiro confidente já não tinha altura suficiente para sustentar sua cabeça. E de uns tempos para cá havia adotado mais um que o ajudava nesta tarefa. Era muito útil e até um querido.
     Passou a caminhar pelo apartamento, tentando decidir quem iria e quem ficaria. Andou, andou tanto que percebeu que o rumor interior havia sumido. mas continuou andando até que chegou à conclusão de quem ficaria: ela!

domingo, 3 de abril de 2022

A menina encantada!




 

      Aquele muro, aquele portão! Eles a separavam de uma vida da qual não tinha a mínima ideia. Curiosidade? Tinha! Mas não lhe faltava nada. Nascera ali, fora criada ali, tivera uma infância divertida e cheia de surpresas com a natureza que fazia parte do seu mundo que não era pequeno. Podia correr, podia ir a diferentes recantos sem repeti-los por diversos dias. Tinha amigos! Sim, sabia tudo sobre as formigas, conhecia os pássaros e suas rotinas, identificava cada tipo pelo cantar, pela cor, pelo tamanho. Sabia o nome de todos. Como? Ah, o jardineiro lhe ensinava, apesar de ter ordens para não conversar muito com ela. A garota nem se dava conta disto. Ficava feliz com os ensinamentos e pronto.

      Havia um lago. Não sei se artificial ou natural, mas muitos tipos de peixes e tartarugas habitavam naquelas águas. E a menina conhecia cada um. Alguns até nomes tinham. Na verdade conhecia poucos nomes, então, repetia o nome da moça que cozinhava, adicionando números. Os números ela sabia, pois alguém, quando ela era bem pequena a ensinara a contar. Contava os passos, contava os móveis, contava as nuvens. Este alguém um dia sumiu. Nada lhe disseram, e ela achou que a vida era assim.

      Não assistia a programas de televisão, porque aparelho não tinha. Não lia porque não havia nada para ler, e ela nem saberia. Não ouvia música porque não tinha rádio nem qualquer outro instrumento que fizesse som. Todavia, a garota cantava, cantava imitando os sons que ouvia. O canto dos pássaros, o barulho da chuva, o rumor que vinha por cima do muro. Era do mar que ela não tinha a menor ideia de que existisse, de como era! Às vezes miava afinada, e os gatos da casa saiam em procissão atrás dela, e ela amava aquilo. Na maioria dos dias cantava antes dos galos pois acordava com os primeiros raios de sol. 

      Numa noite, quando já tinha uns dezesseis anos, houve um grande temporal que derrubou uma boa parte do muro, pois já estava muito velho. Ao parar a chuva, a mocinha saiu a caminhar pelo grande pátio e chegou ao muro desabado. Foi pisando os pedaços dele caídos, e, atônita, foi vendo tudo que havia do outro lado. Atravessou aquela fronteira e se botou a andar. Continua até hoje, sem saber quem é, sem dar-se conta de sua existência, lendo um novo mundo a cada lugar por onde passa. O jardineiro e a cozinheira nunca mais souberam dela.

     O povo a observa, a alimenta, dá-lhe abrigo, mas ela volta a andar, emitindo os sons que aprendeu. Uma vez ou outra, conhece um novo e passa a emiti-lo, inofensiva, encantada.

 

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Mostrar energia!

      Hoje à tarde assisti a um programa de competição entre pintores no canal Arte 1. Achei interessante! Para cada  etapa da competição os concorrentes recebiam uma indicação dos orientadores que, após cada trabalho concluído, faziam uma avaliação oral para o concorrente de maneira a ele poder melhorar na próxima. Uma das orientações me fez imediatamente pensar na escrita. Estando frente a um rio, foi dito aos pintores que eles deveriam mostrar, ao estilo de cada um, a força, a energia, a superioridade do que estavam apreciando.

      Para mim, pensando na pintura, achei que era simples, bastava escolher as cores, os traços, enfim, não minimizei, mas considerei fácil a tarefa. Imediatamente passei a fazer considerações de como isto poderia ser realizado numa narrativa com palavras, frases, enfim num texto.  Como se pensa bobagens quando se coloca ou não a razão a funcionar!

      Ora me poupe, senhora metida a escritora! Por acaso nunca fez um texto em que tivesse de mostrar sua força? Não a do seu corpo, seus braços, seus dedos, batendo as teclas de raiva! Não! Estou falando da força das palavras! Tá difícil, né? Claro, acha que escrever é ficar devaneando sem rumo, sem técnica, sem organização! Dá pena de lhe ver, muitas vezes, passando por analfabeta quando escreve, deixando que o coração tome conta! 

      E tem mais: não é porque você narra uma violência, uma cena de estupro, um assassinato, um tsunami que seu texto vai ser forte, vai ter energia! A energia está na maneira como distribui as ideias, escolhe os termos, formaliza as frases! É fácil! Não, não é fácil, é muito difícil. É gritar pelas palavras escritas, é violentar pelos sons, é cortar com uma navalha afiada o pulsar do coração do leitor através do ritmo, da pontuação. Você está me entendendo?

      Eu entendi, sim, entendi! Desculpem-me os pintores, confesso que ainda acho que é mais fácil usar pincéis e tinta! E você?




      

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Túnel Verde

      Você já sentiu a emoção de transitar por um túnel?  Nem sempre se tem esta oportunidade. Um túnel, aquele lugar fechado dos lados e por cima, o qual se adentra para alcançar mais rapidamente um lugar, um objetivo. Túneis existem na maioria das grandes cidades hoje em dia, pois facilita o trânsito.
      Porém o túnel de que estou falando não tem nada a ver com estes pelos quais passamos de carro, de ônibus, normalmente com os vidros fechados, em algum ou até alguns dias da semana indo para o trabalho, para os compromissos. E com certeza, se fizessem uma enquete sobre as emoções de passar neles, nada teríamos de muito alegre ou romântico, pois raramente damos ao nosso coração a chance de nos mostrar qualquer sentimento nestes trajetos.
      Há alguns anos , fiz a travessia do Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra pelo famoso túnel construído dentro da água. Lembro que entrei no trem, sim, esta é uma rota que se faz de trem, sentei, a máquina começou a se movimentar, tudo escureceu, e eu só lembro de acordar. Nada vi, nada senti, nada tenho para contar. É rápido? Sim, bastante rápido e é uma maravilha inventada pelo homem.
      Ontem, depois de almoçar com uma amiga que, durante esta pandemia, está morando em sua casa, entre o litoral e uma linda lagoa, peguei a direção de meu carro e voltei para a capital. São uns cem quilômetros por uma estrada pela qual há muito não passava. Já, ainda no município de Cidreira, notei não só a exuberância das grandes árvores, arbustos mas também o viço de suas folhas que faziam uma linda mistura de tons de verdes! No entanto, não sabia o que me esperava, o que realmente me encheria de prazer e alegria. Veio quase que de repente, depois de uma leve curva. Tudo ficou escuro, achei que o tempo havia mudado E, então, eu vi a beleza que a natureza nos dá numa simples emolduração de uma estrada. Por quantos túneis já passei, uns diferentes dos outros, super bem planejados, mas nenhum me presenteou com a emoção deste, o túnel verde! Quando estava perto do fim, quando a claridade começou a voltar, ousei, como sempre! Peguei o celular e saquei uma foto! Precisava documentar para poder repetir a emoção!     


                              

domingo, 7 de novembro de 2021

A virada!

     Um dia, sem que ela nunca houvesse pensado, veio-lhe uma ideia que pareceu  até praticável. Não era nada comum, nem acreditava que lhe dariam apoio, mas o que lhe interessavam os outros? Havia chegado numa idade em que o mais importante era fazer o que lhe fizesse feliz! E foi assim que iniciou o planejamento de sua virada na vida.

     Começou por seus armários. Por que tinha tantas roupas? Poderia passar mais de um ano sem repetir um traje. Que absurdo! Mas acabava se justificando, afinal cuidava muito de seus pertences. Tinha peças com mais de dez anos! Por quê? Aquela mexida afetou o seu psicológico e deu-se conta de que era apegada ao que suas roupas representavam, às suas memórias, aos seus momentos.

     Foi, então, que resolveu trocar de ambiente e foi para a sala, onde abriu, em primeiro lugar, um velho armário de guardar discos de vinil que hoje abrigavam seus cristais?!  Cristais!? Guardados! Raramente usados! Sentou numa velha poltrona e pôs-se a pensar nos anos em que não fazia uma festa em sua casa. Pensava e não conseguia saber há quanto tempo não abria aquela "cristaleira". Os bichinhos que lá estavam podiam dar a ela esta noção. Mexeu-se na poltrona e ouviu o ranger das molas e das madeiras. Outra coisa velha!

     Levantou-se e foi ao banheiro. Lá havia um grande espelho. E dos bons! Parou em frente a ele e ali ficou por algum tempo, analisando-se, tentando "lincar" a ideia que tinha tido com o que constatava. Não lhe era tão desagradável a figura que se tornara.  Não conseguia questionar nem julgar a virada que estava planejando. Distraída deixou cair uma moeda que achara dentro de uma taça na cristaleira e carregara-a junto ao banheiro, sem se dar conta. Havia ficado movimentando-a entre os dedos enquanto pensava se olhando. Agora lá estava ela no chão. 

     E foi esta moeda que a fez voltar à realidade. Abaixou o tronco para tentar pegá-la, mas viu que não alcançava. Forçou um pouco mais para baixo, e suas costas gritaram. Flexionou os joelhos, e eles reclamaram. Abriu as pernas. Uma questão de física. Isto diminuiria a distância entre a mão e a moeda no chão. Ótima ideia. Não adiantou. A moeda estava deitada sobre o ladrilho e seus dedos não conseguiam fisgá-la. Segurando-se na pia foi se levantando, caminhou se arrastando até o escritório onde pegou um bloco de notas e fez a anotação de mais uma coisa a solicitar para o primeiro filho ou neto, que viesse visitá-la, pegar.

     E assim, dando de ombros, voltou a sentar na velha poltrona, ligou a televisão e começou a rir. Não sei se dela ou do programa que estava passando. O que era a virada? Não sei! Ela não me contou!

domingo, 3 de outubro de 2021

Aos poucos.

    Aos poucos vamos nos acostumando à escassez, 

    à falta,  ao estar só, ao viver conosco mesmo.

    Aos poucos vamos nos esquecendo das vozes que nos faziam bem,

     dos carinhos que nos acalentavam, das alegrias que eram tão assíduas.

    Aos poucos vamos nos acostumando ao silêncio, 

    ao vazio, ao cinza de uma existência com raras cores.

    Aos poucos vamos aprendendo  a não elaborar projetos, 

    a não ter consciência do pensamento,  a não lutar.

    Aos poucos vamos aceitando as limitações, 

    as mudanças, as perdas.

    Aos poucos vamos nos dando conta da finitude, que não nos larga, 

    e passamos a aceitá-la, revestida de paz.

    Aos poucos começamos a ver o quanto éramos bobos ao correr atrás do ter razão.

    Aos poucos o riso silencioso toma conta de nós 

    e pensamos no passado não com saudade, mas com orgulho e glória.

    Aos poucos vamos deixando que os mais jovens corram, gritem, briguem, lutem!


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Mais um bichinho pensante!

       Lá vem ela! Não consigo saber por que esta senhora não deita e dorme a noite toda. Uma coisa é certa, ela acorda sempre no mesmo horário. Vem, abre a geladeira, pega coisas para comer, aquece no tal de micro-ondas, onde tenho medo de entrar distraidamente e morrer cozida. Sim, cozida porque me parece que este aparelho não assa. 
      Ainda bem que é noite, pois, enquanto a madame está na cozinha, eu me mantenho imóvel para não chamar a atenção dela. Se fosse dia, torraria na vidraça ensolarada. Preciso achar uma fresta para entrar.  Considerando o vício desta senhora de comer na madrugada, suponho  ter muita coisa boa por ali. Não acredito! Colocou leite para esquentar. Vai demorar. E minhas pernas não aguentam mais ficar paradas. Os dedinhos, então, estão mais gelados do que nunca. Vou me movimentar bem devagarinho! Vou pra cima, pra onde o caminho é mais curto.
      O que aconteceu? A senhora saiu da cozinha, mas deixou tudo por ali e a luz acesa. Deve estar caducando. Vou descer! Ai, ela voltou! Está vindo nesta direção! E tem o celular na mão! Só o que faltava querer fazer vídeo comigo para colocar no TikTok e ganhar dinheiro às minhas custas. O que eu faço? Estou no meio do janelão. Pra que lado devo ir. Lá vem ela mais para perto! O que ela quer fotografando minha barriga e a sola das minhas patinhas? 
      Mas é muita cara de pau! Nem me pediu licença! E os direitos de imagem? Não sei por que estou pensando nisto, ninguém se preocupa com minha imagem, só fogem! E eu sou tão querida, fofinha, delicada. Ah, não! Esta velha está se aproximando. Acho que quer ver o pulsar do meu papo. Ainda bem que por trás do vidro ela não vê meus olhos. Iriam assustar a idosa, pois tenho certeza de que denotam minha brabeza. Quer saber de uma coisa. Vou fazer o que sei melhor: fugir! Fui!
      Mas volto amanhã!

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Uma foto de amores!


 

        Às vezes tu fazes uma foto e, quando a olha, no celular, para ver se ficou boa, não vês defeitos. Vês um monte de amor ligando os elementos, ouves muitas histórias. O rádio da cozinha da casa onde nasceste e de onde vinham as vozes dos rádios-teatros que ouvias, secando a louça que tua mãe lavava; o cinzeiro em forma de mosca que pertenceu ao querido irmão, que cedo foi para outro plano; a violeta, presente que teu filho mais velho te deu no último Dia das Mães. E de repente tu te deparas com o tampo da mesinha que fez companhia para tua mãe até quase os últimos dias dela. E então tu te dás conta de que não é uma simples foto, é um troféu onde está o amor que te fez, te faz e que te mantém.

 

terça-feira, 6 de julho de 2021

Artimanhas de um cachorro!


         Oba! Hoje tem churrasco!

        Vou ficar aqui por perto da mesa. Não quero saber de ficar lagarteando no sol, apesar de o dia estar muito bonito. Os bobos dos meus irmãos estão lá no pátio. Até parece que perderam o olfato. Eu não! Senti de longe o cheirinho desta costela. Costela tem osso e eu adoro. O Zack, aquele grandão crianção, só quer saber de pegar bolinha. Faz todos os  humanos atirarem para ele. Já o Cody fica dando uma de cachorro fino, se acha o mais queridinho da mamãe e não larga dela, que está lavando alface. Da minha amada Nina Simone não vou falar, mas também não vou dividir o pedaço que eu ganhar.

        Este cara que está cortando a carne está muito demorado, porém, muito concentrado, nem viu que estou aqui. Fico com vontade de dar umas latidas pra chamar a atenção dele, mas eu sei que mamãe não vai gostar. É capaz de me dar um  empurrão para fora daqui. Vou ficar quieto. Já sei, vou me levantar e espiar. Colocar meu focinho na beirada da mesa. Meu Deus que maravilha! Não aguento mais. É costela, daquela deliciosa, com ossinhos não muito grandes e carne bem macia. E o  meu papai sabe fazer  um churrasco! Hum, lá se vai a tábua. Estou vendo que vão servir os humanos primeiro. Espero que não comam tudo. Comeram!

        Vou dar uma volta ao redor da mesa. Pode ser que alguém resolva me agradar. Vou enfiar o focinho no meio das pernas deste velho, opa, que feio, deste senhor. Credo me empurrou para longe dele! Não deve gostar de mim. Ah, mas estas pernas femininas estão me agradando. Acho que a dona delas vai me dar um ossinho. É, até me fez um carinho na cabeça, mas nada de dividir comigo o que está comendo. Vou pra perto do meu pai. Ele está tirando mais um espeto do fogo. Agora vai chegar a minha vez. Como assim? O que está acontecendo? Inacreditável! Nina Simone, Snoop Dog e Zack agarrados em pedaços de costela!

        É, "quem vai ao ar perde o lugar". Quem mandou eu querer bancar o espertinho e tentar pegar antes de todos! Agora, é esperar a minha vez!

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Pensamentos de um gato!

        Ainda bem que a velha que se diz minha dona hoje esqueceu de baixar a vidraça quando veio colocar esta flor na janela. Coitada! Coitada da velha que acha que posso me suicidar e coitada porque está ficando esquecida. Bem bom, Assim vou me deliciar apreciando melhor a paisagem. Sou silencioso, e ela já ligou a televisão da quarto para ver aquelas novelas idiotas. Eu prefiro quando ela põe música, mas isto só pela manhã. Ela é muito engraçada. Acha que ainda sabe dançar. E dança. Toda desengonçada! Mas por que estou a falar dela?
        Quantos pássaros! Eles vêm vindo nesta direção! Adoro apreciar o voo deles. Quer dizer, não só isso, adoro abocanhá-los, principalmente, os gordinhos. Nem me importo com as penas. Vou separando-as na boca e depois as cuspo. É um bom exercício bucal e facial. Ah, os ossinhos! Como é gostoso chupá-los até ficarem bem lisinhos.
        Mas o que é isto?  Eles mudaram o rumo! Será que é por minha causa? Com certeza. Eles morrem de medo de mim e de todos os gatos. Estão cada vez mais longe! Que bobinhos. Imagina que eu iria pegar um deles? Nem pagando. Tenho sete vidas, mas daqui do nono andar não ouso fazer esta proeza. Bem que quem me criou podia  ter-me dado asas. Que estrago eu faria. Agora vou ter de me consolar em comer esta flor. A minha dona sabe que adoro comer plantas, e esta vermelha está me tentando, até porque está me atrapalhando aqui, Esta janela é minha! Hum, está uma delícia. Ela é docinha! Espero que não me dê dor de barriga. A noite está chegando ligeiro. Vou para a cama também.
        - Cobra! Onde você estava? Mexendo nas minhas maquiagens? Está de batom! Não suba na minha cama! Ah, lembrei que não fechei a janela da sala!
        Lá vai ela! Batizou-me de Cobra, que ironia! Ela diz que é por causa do jeito que caminho. Não deve ter lembrado que as cobras, como eu, adoram comer passarinhos! Pobrezinha deve estar desesperada procurando a flor e botando a culpa no vento. Que vento? Hoje nem tem vento!  Coitada!     
        

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Monólogo de uma pomba!


        Venha cá, seu abusado! Já sei, não vai nem se virar para saber se é com você. Mas é, sim! Todos os dias é a mesma coisa. Não, todos os dias não é mais. Isto acontecia quando éramos mais jovens e você pesava menos. Também, além de não comer tanto como agora, fazia muito mais exercício. sabe de quais exercícios estou falando, não? 
        Faz que não ouve! Será que finge mesmo? Às vezes fico pensando que este cara pode já estar surdo. Não vamos exagerar, meio surdo. Acontece! Se outras coisas já não funcionam tão bem, pode ser que a audição esteja debilitada. Falar em debilitada, outro dia encontrei com aquele seu amigo, metido à machão também. Não adianta contar que ele está como você. Pelo menos é o que andam espalhando por aí. O pessoal já está vendo que vocês não são mais os mesmos.
        Agora hoje, este rodeio todo, fazendo voltinhas ao meu redor, cheirando meu cangote, emitindo aqueles sons tão conhecidos e de que eu gostava tanto, deu-me até um certa esperança de que voltaríamos a ter uma longa festança de amor aqui em cima deste prédio. A vizinha do outro edifício até ficou um tempo na janela, nos olhando. Devia estar pensando que não temos pudor ou era inveja do que iria acontecer.
        Iria acontecer! Realmente, eu estava entusiasmada, Topei lhe mordiscar como fazia em mim, mas a decepção foi grande quando, ao tentar subir no meu traseiro, você se desequilibrou, rolou e, não fosse a nossa habilidade de voar, estaria espatifado na calçada a esta hora. Ainda voou de volta e agora, depois de caminhar exibido pela murada, fica aí se fazendo, como se nada tivesse acontecido. Ainda ouço a risada da vizinha ao sair da janela.
        

segunda-feira, 15 de março de 2021

O Pote da Gelatina


     Abri o armário e lá estava o pote que eu queria, o que eu precisava. Botei a mão nele com todo o cuidado, não podia correr o risco de deixá-lo cair.  Um simples pote de vidro com tampa que havia recebido de presente logo no início de meu casamento, não lembro de quem. 

     Logo que o ganhei, levei um bom tempo experimentando colocar dentro dele diferentes alimentos. Bolachas e biscoitos logo amoleciam, não era bem vedado; um bolo não caberia nele; e, assim, por alguns anos ele foi usado para guardar sobras. Eu gostava dele, mas não gostava da utilidade dele.

     Quando meu primeiro filho chegou à idade de comer gelatina, uma luzinha acendeu-se na minha cabeça e finalmente achei uma bela utilidade para o pote. E assim, enquanto o primogênito se desenvolvia, batia palmas e se lambia ao ver o pote de gelatina após a sopinha. Como não bater palminhas para algo colorido, brilhoso e gostoso. Propositadamente a cada dia eu fazia a gelatina de um sabor e consequente cor diferente. E eu gostava daquele momento, daquele pote.

     Meu segundo filho veio quase em seguida e o pote continuou a ser usado e a encantar. Na época, contratamos uma moça, a Vera, que me ajudava no cuidado dos filhos. A gelatina era eu que preparava, mas às vezes ela  queria fazer, e eu sempre a avisava para não quebrar o pote. As crianças cresceram e o pote ficou pequeno. Um pacotinho de gelatina, que era o que ele suportava direitinho, não era o suficiente. E por muito anos o pote ficou de lado, sem utilidade nem para as sobras, pois vieram os de plástico.

    A idade me fez voltar a comer gelatina. Fazia dois pacotinhos, como fora o costume nos velhos tempos, colocava num pote maior e acabava por enjoar da coitada. Endurecia, aguava e ia para o lixo. Dei-me conta de que deveria fazer apenas um pacote. Saí à procura de um pote menor. E foi aí que o encontrei. Um simples pote de vidro, com 51 anos de idade, fez-me lembrar de momentos maravilhosos e me fez escrever este texto para alertar sobre a importância de se guardar pequenos objetos que, por um tempo, estavam fora de uso.




     

sexta-feira, 12 de março de 2021

Um filme sobre rodas

      As rodas, sim, as rodas do ônibus! Eu as ouvia deslizando, às vezes, suavemente, outras, batendo rispidamente nos buracos da estrada. Elas iam rapidamente na direção de seu destino. Diferente de mim, que não saia do lugar. Minha cabeça reclinada para a janela fazia com que meus olhos fossem se deliciando com o que viam. Assistiam a um filme inédito da natureza. O filme de hoje, de agora, porque daqui a pouco,  a exibição seria outra. A exibição dos campos verdes, do relevo suave das macegas que, com certeza, escondiam segredos jamais revelados. O céu azul fazia o fundo quase musical com a mistura das nuvens que não paravam. Quem ia mais rápido o ônibus ou elas? Aqui e acolá uma casinha, uma fumaça saindo de um chaminé, um cortina esvoaçando para fora de uma janela aberta! Gado, árvores, lago, fios elétricos, plantações! E eu imóvel!  Sentada na poltrona vinte e sete.
      Vinte e sete! Engraçado sempre achei que este era meu número de sorte, mas nunca ganhei nada com ele. Nunca? Como nunca? O que estava acontecendo não era um sorte? Estar sentada numa poltrona confortável, à janela, num ônibus maravilhoso, assistindo a um filme único, não é algo de que poucos conseguem desfrutar? Claro que era meu número de sorte! 
      Olha um lago! Que lindo! Uma pequena ilha nele com uma casa nela. Uma pontezinha de madeira para lá chegar! Instantaneamente, veio-me à mente um castelo que conheci no interior da Alemanha. A ideia era a mesma, uma ilha, uma ponte, uma casa. Mas quanta diferença! A de agora, simples, quase pobre, de madeira, um andar só. A de lá, majestosa, na verdade, um castelo com muitos andares, muitas janelas, muitas torres com pontas em busca do céu. O lago daqui pequeno, água suja, cara de açude. O de lá enorme, muita água, limpa com veleiros navegando. Lá a ponte era forte, podendo passar carros e carruagens. Aqui, frágil com passagem para uma pessoa. Mas e daí? O prazer de ter uma casa numa ilha no meio de um lago, com certeza, é o mesmo!
      O que é isso? Um lixão! Casebres perto! Crianças brincando, hortinhas junto a dejetos! É, no filme da vida, da estrada, nem sempre tudo é belo e causa alegria. Fechei os olhos não para não ver, mas para poder pensar mais profundamente sobre as desigualdades do mundo. Devo ter adormecido, porque quando abri os olhos já não conseguia ver nada. A noite havia descido por completo, encerrado o filme e fechado as cortinas do meu deleite.

(Escrito em algum dia de outubro de 2019)
     

Sons da Pandemia 02

    Era Dia dos Pais! Em meia a pandemia, sozinha, fazia meus exercícios à beira do janelão da área de serviço, na tentativa de pegar uma nesga de sol nos braços. Meus filhos pais já haviam recebido meus cumprimentos pelo celular. O momento era de total silêncio. Será? 
    Às vezes a gente pensa que está em meio ao silêncio, talvez porque não estarmos emitindo uma palavra, um cantar. Comecei a prestar atenção, como se abrisse mais minhas orelhas para que captassem tudo que fosse som. E assim passei a ouvir o arrastar do tênis quando chegava ao chão, carregado por uma de minhas pernas após ter feito um ângulo de 90º para trás. Dez repetições, dez vezes o mesmo som. Então veio o teste com a outra perna, e o som se repetiu. Dei um sorriso. Que bobagem estou fazendo. Mudei o exercício e esqueci o som. Esqueci?
    Comecei a ouvir o som de vozes, vozes que trocavam palavras, palavras que transmitiam ideias, mas que chegavam a mim num turbilhão sem que conseguisse entendê-las. Pareciam vir de cima, difícil ter certeza do local do som. Em meio à confusão de sílabas, aparentemente, desconexas, vieram as risadas. Rir! Claro, rir emite tantos diferentes sons e nos instiga a rir também, pelo menos a sorrir. E como é bom! 
    Os risos provocaram os latidos, e estes, sim, penetram em nossos ouvidos e causam-nos alguma reação. Vontade de dizer para parar, vontade de pegar o bichinho no colo, vontade de ter um cãozinho. Eu? Claro que não, já estou delirando. Só quando eu ficar bem velhinha. Será que já não estou?
    Apito estridente incessante! Meu celular avisando que já havia ficado vinte minutos pegando sol. Desliguei o alarme, parei, tentei ouvir mais alguma coisa que me chamasse atenção. Ouvi! Ouvi meu estômago roncando. Era hora de me alimentar!    

(Escrito em 09 de agosto de 2020)
     

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Sons da pandemia 01

          Hoje acordei ao som do apito de um navio. Imediatamente veio a minha lembrança as histórias que ouvia de meu pai quando este som chegava a nossa casa, num momento em que podíamos ouvir. Dei-me conta de que morávamos a quatro quadras do rio. Lembrei também da história que minha mãe contava sobre o pai dela, que era comandante daquelas pequenas embarcações que fazia o trajeto Porto Alegre, São Jerônimo ou Triunfo, não sei direito. Ela dizia que corria junto com os irmãos para receber o pai. Fiquei deitada na cama, vendo estas cenas contadas passando pela minha memória. 
          Quando decidi levantar, fui direto à janela, abrir tudo, cortina, vidro, persiana, para ver o brilho esplendoroso do dia que recebia. Olhava para o azul do céu quando outro som me surpreendeu. Era um bem-te-vi que falava que tinha me visto. Procurei-o e encontrei-o sozinho, cabeça erguida, em cima da murada do terraço de um prédio bem próximo. Sim, eu tenho certeza de que ele conversava comigo. Ficamos um tempo emitindo sons um para o outro. 
          Ao me virar para sair da janela, ouvi o miado de um gato. Onde está este bichinho agora? Estava no mesmo prédio, mas alguns andares abaixo, acho que tomando um banho de sol, pois fazia pose entre o vidro da janela e a rede que o protegia. Protegia ou prendia? Não vou entrar nesta discussão. Lindo, totalmente branco, olhava-me e miava. 
          Será que se não estivéssemos na pandemia, eu ouviria estes sons? Sentira carinho neles? Encantar-me-ia com eles e pararia a minha vida para dar-lhes atenção?
          

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ode 01 ao meu rei, o Sol!

Ora, o que queres tu, meu rei?
Passaste o dia a te esconder
Apesar do meu desejo
De sentir em minha pele
As carícias dos teus braços
Fortes, poderosos, delicados.

Vens agora me dar boa noite,
Esquecendo a minha dor,
Brincando de espiar-me,
Escondendo-te entre as nuvens,
Fazendo-me padecer de tristeza?

Já tens idade para entender
Que amor conquistado
É amor respeitado!
E se queres saber?
Não vou perdoá-lo,
nem mais esperá-lo!

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Num dia de chuva

Ah! aquele chalé de madeira sem pintura,
aquele avarandado onde descansa a velha cadeira de balanço,
e a chuva que não para!
Quero sentar naquele velha cadeira,
balançar lentamente pra frente, pra trás.
tocar levemente os pés no assoalhado molhado 
e sentir o friozinho da água virgem que desliza pelas paredes celestes.
Vou deixar a cabeça cair,
olhar para o céu
e descobrir quem não fechou a divina torneira.
Então, vou manejar os pensamentos pra bem longe,
lá onde as recordações são pequeninas,
onde a imaginação e a realidade se entrelaçam
num casamente perfeito, mas cheio de falhas,
onde a lembrança se esvai da nossa mente
como a água da chuva na terra.
E eu vou chorar sorrindo!

Obs.: Poema inspirado num primeiro escrito e publicado por mim na minha página do Facebook, no dia 03 de outubro de 2019.